segunda-feira, 13 de agosto de 2007

‘Noite Estrelada’, uma obra de um doente mental

No limiar de 1889, Vincent Willem estava internado num hospital psiquiátrico. Amigo, era triste ver a masmorra em que meu irmão vivia. Era sofredor. E ele já sofria muito, em seu mundo particular. Uma loucura insensata. Sem coerência... até mesmo em suas obras psicodélicas. Obras psicodélicas, o que não era de seu feitio. As velhas paisagens estavam até perdendo a vida, a suma existência. A coesão e coerência embrenhavam-se nas profundezas da escuridão.

Em Saint-Remy, seu quarto era privado de objetos que pudessem se tornar de alguma forma, uma arma lúgubre. Lembro da enfermeira prostrar irreverência aos seus materiais artísticos. Até pastinacas de tintas vivas poderiam ser usadas de forma errônea. Eram tintas tóxicas. Mas meu irmão Willem não cedeu à controvérsia de sua liberdade de expressão.

Primeiro pintou uma praia. E sentou-se no chão transbordando em gargalhadas descomedidas e jorrava verbetes sem sentido aos ares. Depois levantou e deixou o céu cobrir a cena, como um manto de veludo. Capturou a alma e riu novamente. A tinta espirrando para todos os lados faziam dos quatro cantos da sala, paisagens minudentes. Cada uma expressando um momento de discernimento de meu irmão. Depois colocou as bailarinas sobre o veludo. Cada estrela compunha um arranjo especial, único e expressivo. Reprimiu-se mais uma vez e novamente, voltou a esbeltar verbetes sem coerência. Mas Willem não se deu por vencido, integrou-se novamente às suas ferramentas e pintou novas estrelas, mas estas não eram estrelas comuns, vagando no manto celeste. Eram luzes terrestres, postes de luzes que esculpiam uma velha calçada à beira de uma baía. Uma baía cujo mar fazia ondas através do pincel e da tinta que escorria da última loucura de meu irmão.

Algumas pessoas chegaram a questionar o que teria levado meu irmão até Saint-Remy. Eu digo que foi o crime irresoluto que por alguns pormenores preenchidos entre as colunas do mais importante impresso de Paris, alegam ter sido cometido pelo meu próprio irmão, mas que por vestígios apresentados por ele mesmo, chegam a provar o oposto. E a obra estava terminada, faltavam poucos dias para meu irmão deixar a vida.

E então, ele me escreveu uma carta que continha os seguintes dizeres: "Eu pinto como um meio de tornar a vida suportável... Na realidade, nós só conseguimos falar através de nossas pinturas." Mas nem através da pintura, Willem conseguiu saber o que queria. Uma interrogação a qual vinha matutando constantemente. Muitos alegam que o estopim do tiro que meu irmão deu em si próprio foi a causa da morte. Mas digo, meu irmão já estava morto e tudo porque ele só queria resolver um enigma. Algo que eu também gostaria de saber. Quem cortou a orelha de Van Gogh?


E tudo que restou naquele momento foi uma noite estrelada.


.:por acaso estava na internet...:.

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